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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Mitologia Celta (II)

Mitologia Celta
Os celtas não escreviam seus mitos, eles passavam de geração a geração através da tradição oral de seus bardos. Para os druidas, escrever seus mitos seria o mesmo que aprisionar seus espíritos. Portanto, contamos com outras formas de estudo de sua mitologia:

- as lendas foram resgatadas através dos registros feitos por monjes copistas irlandeses que passaram as principais histórias celtas para o papel em belíssimos manuscritos;

- os mitos estão vivos até hoje através das tradições populares orais das terras celtas (principalmente Irlanda, País de Gales e Escócia).

Na Irlanda, o registro mais antigo da mitologia celta é o “Book of  the Dun Cow”, que contém as sagas do herói Cuchulainn, escrito pelo monje Maelmuri, morto pelos vikings, em sua catredral, em 1106. Esse título se deve a um manuscrito do séc. VII, escrito por S. Ciaran sobre a pele de sua vaca de estimação.

O legado celta da Irlanda é muito forte e a mais direta fonte para estudos, pois os romanos jamais invadiram esse país. Preciosos manuscritos da mitologia irlandesa nos elucidam muito sobre a espiritualidade e sociedade celta. Alguns textos-chave são “O Livro das Invasões da Irlanda”, “O Roubo do Gado de Cooley”, “A Cartilha do Sábio”, “A Batalha de Moytura”, entre outros.

Na mitologia britânica temos o Mabinogion, uma coleção de 11 contos galeses conservados nos manuscritos “White Book of Rhydderch” e “Red Book of Hergest”, dos sécs. XIII e XIV. Mabinogion é o título dado por lady Charlotte Guest, em 1849, quando ela fez a tradução dos manuscritos para o inglês. Erroneamente, ela achou que essa palavra era o plural de mabinogi (“conto de infância”, isto é, uma lenda da concepção, do nascimento e da iniciação de um herói celta). Além disso, apenas os 4 primeiros contos são relatos desse tipo e perteciam a um mabinogi original. Os outros 7 contos foram incluídos depois e não são relacionados e esse tema.

Sobre os contos populares, estes estão, infelizmente, fadados a morrer junto com a tradição popular oral, que vai sendo substituída mais e mais pelo advento da televisão e sua cultura global, inclusive nas zonas rurais outrora celtas. Algumas dessas histórias são claramente uma preservação dos mitos e lendas da antiga classe governante celta. Eruditos preservaram muitas delas ao registrarem tudo que ouviram de contadores de histórias e trovadores/bardos.

A natureza da mitologia celta remete ao papel dos bardos - sacerdotes e professores responsáveis pela conservação e perpetuação da história de seu povo. Assim, através de sua mitologia, temos acesso às preocupações e costumes de sua sociedade. Pelas lendas e mitos celtas, podemos afirmar que eram um povo com paixão pela beleza, visto que são fartas as descrições das vestes e adornos do heróis, heroínas e deuses. Guerreiros com vestes coloridas e cabelos eriçados, heroínas  com cabelos ricamente trançados e usando muitas jóias são comuns a várias histórias. Era um povo também aficcionado pelos mistérios da Natureza: as magias e jornadas misteriosas aconteciam sempre durante caçadas, nas florestas ou através de viagens pelos mares. Animais falantes são comuns, outra vez remetendo ao xamanismo entre os celtas.

Os mitos também são tidos como um tipo de explicação para os mistérios da religiosidade. No caso dos celtas, vemos que as lendas celebram a imortalidade (amores que perduram após a morte, cabeças de heróis que possuem poderes e sabedoria, etc) e assim encorajam a força de uma sociedade guerreira. A certeza da imortalidade fez dos celtas guerreiros destemidos. As constantes visitas ao Outro Mundo nas lendas refletem os costumes de ritos de transição, como também a celebração da ciclicidade da Natureza, bastante presente nessa sociedade que se baseava na passagem das estações do ano, tanto na vida diária, como na religião. Na verdade, os celtas pouco separavam a religião do dia-a-dia, pelo contrário: um fazia parte indivisível do outro.

Outra característica da mitologia celta é a presença de elementos e personagens históricos em suas lendas. Para os bardos, história e lenda eram instrumentos de mesma natureza, usados para preservar a memória popular, portanto, especula-se que um grande número de heróis e heroínas celtas tenham realmente existido e seus atos tenham sido tão marcantes que foram preservados pelos relatos e pelas canções bárdicas.

A mitologia celta vivia tão entrelaçada ao cotidiano do povo que, mesmo com a chegada do cristianismo, foi impossível sua destruição. O que ocorreu foi que o cristianismo acabou por incorporar os mitos. O deus único cristão teve de dividir a adoração com inúmeros santos, alguns deles deuses pagãos cristianizados, outros antigos druidas santificados. O exemplo mais conhecido dessa “incorporação” é a história de Santa Brígida que entre os celtas pagãos era a deusa Brighid da tríplice chama, uma tuatha dé danann (tribo de poderosos deuses irlandeses). Até hoje é mantido aceso no santuário de Santa Brígida um fogo sagrado, cuidado por freiras. O culto a essa deusa em terras irlandesas era tão poderoso e forte que foi inviável abafá-lo e ele sobrevive até os dias de hoje na forma da santa com seu fogo sagrado que jamais se apaga.
Andréa Guimarães (Andréa Éire)
andrea.eire@druidismo.com.br

domingo, 28 de março de 2010

Mitologia Céltica

Mitologia Céltica

Os bardos cantavam os grandes feitos dos homens famosos, em versos épicos, acompanhados pelos sons melodiosos da lira. A música original e grande parte da poesia épica desapareceram da tradição quando os mitos foram registrados pelos escritores cristãos. Contudo, algumas das histórias, relativas, principalmente, aos feitos heróicos dos lendários guerreiros célticos, sobreviveram e constituem a substância da literatura a que chamamos agora Mitologia Céltica.
A mitologia pode dizer-nos muitas coisas acerca de uma sociedade, antiga ou moderna. Todavia, antes de podermos começar a compreender a natureza da mitologia céltica, devemos, primeiro desfazer o nosso próprio mito moderno dos Celtas. Durante o final do século XVIII e o século XIX a principal referência aos mitos célticos encontrava-se em textos românticos; e estes proporcionavam uma fuga nostálgica da Era Industrial para uma era regida pela natureza e pela magia, povoada por guerreiros heróicos e por donzelas de pele clara.
Os poetas e os pintores de cada país redescobriram o seu próprio passado céltico: a Irlanda dirigiu o olhar para as lendas, como os contos de CuChulainn e de Fianna ou Feniana; o País de Gales teve a saga heróica de Pryderi no Mabinogion; o poeta escocês James Macpherson (1736 - 1796) forjou as suas Ossionic Ballads (Baladas Ossiânicas),reivindicando serem traduções de um poema gaélico, do século III, chamado Ossian; a Inglaterra ressuscitou as lendas do Rei Artur, em obras como o poema de Tcnnyson, Idjlls of the King (Idílios do Rei).

O Romantismo impregnou os mitos com as suas próprias noções românticas e manteve, freqüentemente, os elementos de medievalismo cristão que ficaram ligados às primeiras versões escritas. A visão romântica do Crepúsculo Céltico, continua a influenciar a nossa percepção dos Celtas no fim do século XX. Precisamos, igualmente, dos nossos mundos de sonho, pelo que a palavra céltica evoca misteriosas paisagens banhadas pelo luar, com sacerdotes druidas de vestes brancas, celebrando estranhos rituais e preparando poções mágicas.
A arte céltica, particularmente na joalheria tem um encanto abstrato que lhe é próprio, denotando ainda uma atração por um passado desconhecido. A literatura céltica tem um encantamento semelhante, o narrador leva-nos de um mundo de gente e de lugares aparentemente reais para terras fantásticas de fadas e de monstros; e tal descrição é fácil de nos enfeitiçar por uma tal cultura. Devemos perguntar-nos se os próprios Celtas entendiam a sua religião como um mistério e os seus poemas como fugas ao mundo real.
As respostas não surgem prontamente: os Celtas não escreveram as suas histórias. Portanto, limitamo-nos a saber quais eram os seus costumes e o seu comportamento pelo testemunho dos autores contemporâneos gregos e romanos, se bem que a sua visão dos Celtas fosse tão mítica quanto a nossa, porque se baseava na suposição de que os Celtas eram bárbaros não civilizados.
Contudo, a arqueologia tem confirmado algumas das observações mais radicais dos escritores clássicos: onde os Celtas praticavam realmente sacrifícios humanos e eram caçadores de cabeças. A arqueologia também aumentou os nossos conhecimentos quanto à maneira como os Celtas viviam, praticavam o culto e enterravam os seus mortos. A datação arqueológica confirma de achados célticos não só confirma as historias como também nós informa sobre o passado pré-histórico dos Celtas.
Existiu uma cultura reconhecidamente “pro-céltica” ao redor do Danúbio superior no ano de 1000 a.C. Contudo, alguns arqueólogos defendem agora uma muito espalhada e gradual “celtização” de culturas que existiam já na Idade do Bronze na Europa Setentrional e Meridional; assim, a Bretanha céltica podia mesmo remontar a 1500 a.C., quando a cultura de Wessex possuía características socias heróicas em conformidade como os primitivos mitos célticos irlandeses.
Bibliografia:
Introdução à Mitologia Céltica de David Bellingham
Livro que utilizo bastante em meus estudos celtas e recomendo.
Rowena Arnehoy Seneween ®